Depois de dois trimestres marcados por descontos agressivos e queima de estoque, o varejo alimentar brasileiro mostrou sinais claros de recuperação no resultado líquido do primeiro trimestre de 2026. A leitura não é uniforme — atacarejo e supermercados de bairro reagiram de formas distintas —, mas o tom das teleconferências foi menos defensivo do que no segundo semestre de 2025. Executivos enfatizaram disciplina comercial e repasse parcial de inflação de custos, em vez de competir exclusivamente por volume a qualquer preço.
O EBITDA ajustado voltou a crescer em várias redes listadas, puxado por combinação de same-store sales positivo em categorias de maior margem e melhor gestão de perdas em hortifruti e perecíveis. O que mudou, segundo executivos ouvidos pela redação, foi a postura comercial: menos campanhas de preço que erodem margem bruta sem ganhar participação sustentável. A redação cruzou releases com formulários de referência e notas de teleconferência para verificar se os ajustes de EBITDA divulgados pelas companhias coincidiam com a narrativa operacional apresentada aos analistas.
Contexto do trimestre
O 1T26 encerrou um ciclo de normalização após o pico de pressão sobre margens no 2S25, quando redes competiram por fluxo em categorias básicas e absorveram parte da inflação de insumos sem repasse imediato ao consumidor. No trimestre mais recente, a combinação de custos de commodities alimentares mais estáveis e menor intensidade promocional permitiu que a margem bruta recuperasse terreno — ainda abaixo dos patamares de 2024 em alguns casos, mas com trajetória ascendente.
A receita líquida cresceu em linha com a abertura de lojas e com a recuperação do ticket em categorias não essenciais, como bebidas premium e produtos de conveniência. O crescimento orgânico por loja comparável, porém, continuou heterogêneo: regiões com renda mais pressionada mostraram elasticidade maior a preço, enquanto praças com maior poder de compra sustentaram mix mais rentável.
Estoque e giro
Um dos destaques do trimestre foi a redução de dias de estoque em categorias de alta rotação. Empresas que investiram em previsão de demanda e integração com fornecedores reportaram queda de capital de giro, o que ajudou o fluxo de caixa mesmo com investimento contínuo em abertura de lojas em cidades médias. A gestão de perecíveis — tradicionalmente um dreno de margem — melhorou com algoritmos de markdown e reposição mais frequentes em hortifruti.
Redes que ainda carregavam estoque elevado de SKUs descontinuados ou de categorias com giro lento continuaram a registrar provisões e queima de mercadoria. A divergência entre líderes e seguidores nesse indicador explica parte da dispersão de margem EBITDA no consolidado setorial. Analistas que acompanham o setor passaram a separar explicitamente o efeito de saneamento de estoque do ganho operacional recorrente.
Quando o varejo para de competir só por preço, o mercado volta a olhar conversão de EBITDA em caixa — e não apenas ticket médio.
Na comparação setorial, o varejo alimentar ainda opera com margem EBITDA inferior à de empresas reguladas como saneamento ou transmissão. Porém, a elasticidade da demanda e a velocidade de ajuste operacional permitem recuperação mais rápida quando a dinâmica de custos melhora. O setor também exige menos capital de investimento por unidade de receita do que infraestrutura pesada, o que influencia a leitura de retorno — mas amplifica a sensibilidade a juros e ao ciclo de consumo.
Margem bruta e mix
A recuperação da margem bruta no trimestre refletiu três movimentos simultâneos: repasse seletivo de custos ao preço final, redução de desperdício em perecíveis e enriquecimento de mix em categorias de maior contribuição. Marcas próprias, que haviam perdido espaço em campanhas agressivas de marcas líderes, voltaram a ganhar participação em redes que priorizaram rentabilidade sobre volume puro.
O atacarejo manteve vantagem em escala de compra, mas enfrentou compressão em algumas regiões metropolitanas onde concorrentes tradicionais reagiram com sortimento local e serviços de proximidade. Supermercados regionais com forte presença em cidades médias reportaram margens superiores à média do segmento, beneficiados por menor exposição a guerra de preços em grandes centros.
Resultado líquido e despesas financeiras
O lucro contábil se beneficiou da menor pressão de juros sobre linhas de capital de giro em empresas que reduziram alavancagem no ano anterior. Outras ainda convivem com custo de dívida elevado, o que limita o repasse do ganho operacional para o bottom line. Analistas separaram os casos em que o crescimento do lucro foi puramente operacional daqueles em que itens financeiros pesaram.
Empresas com expansão acelerada de lojas registraram aumento de depreciação e despesas pré-operacionais, o que pressionou o lucro mesmo com EBITDA em alta. O mercado passou a distinguir redes em fase de investimento — onde o lucro pode ficar temporariamente atrás do operacional — daquelas em maturação, em que a conversão de EBITDA em resultado líquido tende a ser mais direta.
Comparativo entre formatos
Atacarejo manteve vantagem em escala logística, mas enfrentou competição mais intensa em regiões metropolitanas. Supermercados tradicionais com forte presença regional recuperaram margem ao focar sortimento local e serviços de conveniência. E-commerce alimentar continuou crescendo em receita, porém com EBITDA ainda pressionado por last mile em algumas praças — o custo de entrega no mesmo dia ou em janelas curtas consome parte do ganho de escala digital.
Conveniência e minimercados em condomínios e estações mostraram resiliência em ticket, mas com margem operacional mais volátil por dependência de categorias de impulso. O formato híbrido — loja física com retirada programada e entrega por parceiros — ganhou tração como alternativa ao modelo puro de delivery, com custo logístico mais previsível.
O que observar no 2T26
Para o próximo trimestre, o mercado monitorará três variáveis: persistência do repasse de custos sem erosão de volume, evolução do capital de giro após o saneamento de estoques e impacto de eventual reaceleração promocional em datas sazonais. Redes que sustentarem margem bruta sem perder participação em categorias estratégicas tendem a ser recompensadas na leitura de múltiplos — desde que o fluxo de caixa confirme a qualidade do EBITDA.
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