A temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 trouxe um recado consistente do setor de petróleo e gás: o EBITDA ajustado continua robusto em termos absolutos, mas a margem sobre receita perdeu fôlego em relação ao mesmo período do ano anterior. O movimento reflete a combinação de preço médio do barril mais contido, cronogramas de manutenção em plataformas e custos de serviços especializados que ainda não retornaram aos níveis pré-2024.
Para o investidor que acompanha apenas o resultado líquido, a leitura pode parecer contraditória. Algumas companhias reportaram lucro acima do consenso graças a itens financeiros — variação cambial sobre dívida em dólar, por exemplo — enquanto a operação pura mostrou compressão. É justamente essa distinção que nossas fontes em mesas de research destacaram nas teleconferências pós-divulgação.
O que pesou na margem operacional
Três fatores aparecem com frequência nos releases do trimestre. Primeiro, o preço médio de realização ficou abaixo do registrado no 1T25, mesmo com volumes de produção estáveis ou ligeiramente superiores em alguns campos maduros. Segundo, empresas com perfil mais pesado em exploração e produção offshore enfrentaram janelas de manutenção programada que reduziram dias operacionais. Terceiro, contratos de afretamento de sondas e serviços de poço mantiveram pressão sobre o custo por barril equivalente.
O EBITDA ajustado segue sendo a métrica preferida pelo mercado para comparar petroleiras, mas o investidor precisa olhar o que está sendo excluído do ajuste.
Na prática, analistas têm revisitado modelos de margem EBITDA por barril produzido. O número continua saudável frente a outros setores industriais, porém a tendência de queda sequencial preocupa quem esperava que a desaceleração de custos fosse mais rápida. Algumas empresas sinalizaram que parte da inflação de serviços está ligada à disponibilidade limitada de equipamentos no Brasil e no Golfo do México.
Resultado líquido: outra história
O lucro líquido contábil mostrou maior dispersão entre pares. Companhias com dívida relevante em dólar registraram ganhos financeiros quando o real se depreciou no período, o que inflou o bottom line sem melhorar necessariamente a geração operacional de caixa. Outras, com hedge cambial mais conservador, apresentaram resultado líquido mais alinhado ao EBITDA.
Esse descolamento reforça uma regra que repetimos em coberturas anteriores: comparar petroleiras apenas pelo lucro trimestral pode distorcer a leitura. A conversão de EBITDA em fluxo de caixa livre — após investimentos em E&P e dividendos obrigatórios — tem sido o segundo passo da análise nas conversas com gestores de fundos locais.
Comparativo setorial
Quando colocamos o setor ao lado de utilities reguladas ou de exportadoras do agronegócio, o petróleo ainda exibe margens superiores, mas com volatilidade muito maior. A transmissão de energia, por exemplo, apresenta EBITDA previsível quarter a quarter; já o upstream reage rapidamente ao preço internacional. No comparativo dentro do próprio setor, empresas com carteira mais diversificada entre pré-sal e campos terrestres maduros mostraram menor amplitude de variação de margem.
Integradas com refinaria e distribuição tiveram desempenho misto: a margina de refino ajudou em alguns casos, mas não compensou totalmente a pressão no E&P. O mercado parece premiar, neste ciclo, perfis com disciplina de capital e capex mais seletivo.
O que observar daqui para frente
As guidance para o restante de 2026 mantêm foco em eficiência operacional e desinvestimento de ativos não estratégicos. Teleconferências indicam que o mercado vai exigir evidências de queda sustentada de custo, não apenas promessas. Próximos gatilhos incluem leilões de blocos exploratórios e decisões sobre retorno de capital — recompra versus dividendos extraordinários.
Continuaremos acompanhando releases e atas de teleconferência. Para comparar com outros setores expostos a commodities, veja nossa cobertura recente sobre exportadoras do agronegócio e sobre transmissão de energia.